Monday, May 08, 2006

EDUARDO





Vagueei pelas ruas de Lisboa à procura das pessoas que a habitavam. Deparei-me, no Campo das Cebolas, com uma casa sem infra-estruturas. Era quase completa: sem tecto, casa-de-banho ou privacidade, no entanto, tinha um móvel que funcionava como arrecadação, um relógio de parede pendurado numa árvore, uma mesa e cadeiras onde se faziam jantares de “família”, um garrafão de água que servia de torneira, um tapete no chão sobre a terra seca, e uma horta com pequenas plantações. Relembrando-a, esta casa insere-se mais na cena de um filme do que na vida real.
Inicialmente, e de longe, fui somente observando como se movimentavam naquele mundo, e inevitávelmente envolvi-me nele. Um mundo que está tão perto do meu mas de todo desconhecido até então. Desafiei-me a conhecê-lo. Esta experiência única assumiu-se como fonte de crescimento e de transformação. Vivi uma vida que não era a minha mas que se tornou parte do meu quotidiano.
Convivi com aqueles que sentem o amanhecer tocar-lhes na pele, um grupo de pessoas que comigo partilharam a sua casa e me “convidaram” a deitar no seu papelão. Pessoas simples e modestas em que a mera possibilidade de ter dinheiro suficiente para comprar um Pall Mall ao invés de fumar os restos de beatas do chão lhes proporcionava um dia mais “requintado”. Ideias como consumismo, capitalismo, estética, cultura, hábitos/regras sociais já não fazem sentido, sendo banalizadas e por vezes, até inexistentes.
Inicialmente, a desconfiança e o desconforto pela minha presença foi notório, chegando mesmo a pensarem que trabalhava para a polícia. Lentamente foram criando uma ideia positiva do meu trabalho e começaram a perceber o meu objectivo: documentar o dia-a-dia daquelas pessoas sem um tecto.
Eduardo “O Velho”, foi o elemento moderador da minha integração no meio, sendo que no grupo, este era o mais respeitado. Filho de mãe solteira, de escassos recursos, cedo optou pela vida que conhecia, ligada à ilegalidade. Na vida adulta foi preso, tendo sido condenado a 4 anos. Após ser liberto decidiu-se por uma vida diferente. A morte da mãe fê-lo tornar-se morador das ruas de Lisboa, situação esta que perdurava há 21 anos.
A nossa relação permitiu que partilhasse comigo as suas vivências, tornando-se um amigo a quem pude confiar as minhas. A 14 de Dezembro de 2005, Eduardo foi assassinado por um dos seus, e com ele morreu o espaço onde habitava. Após a sua morte senti a necessidade de mostrar o seu quotidiano, ignorando assim o objectivo primário idealizado para este projecto. Debrucei-me somente sobre o Eduardo pois senti a necessidade deste tributo por tudo o que fez por mim e pelas pessoas que todos os dias partilhavam o mesmo “tecto”. Obrigado Eduardo.

Trabalho inserido no Projecto_Lisboa

6 Comments:

Blogger Mónica Costa said...

Ola Tiago, descobri este teu blog devido aos mails que me enviaste e foi impossivel conter as lagrimas com o teu tributo ao Eduardo desejo-te as maiores felicidades do mundo e que a vida te possa sorrir sempre mil beijinhos Monica Costa

11:09 AM  
Blogger Mónica Costa said...

This comment has been removed by a blog administrator.

11:38 AM  
Anonymous Joelma Gonçalves said...

E pensamos nós, na nossa imaturidade caprichosa, q sabemos tudo; que tudo podemos; q somos o Tudo!!
Nunca saberemos tudo; podemos até onde for permitido; e somos apenas um grão de areia do Tudo.
Tá mt real, mt honesto Ti! Tenho gosto em pertencer ao msm areal q tu:)

10:51 AM  
Anonymous Santos said...

obrigado tiago!!! a tua sensibilidade tocou me profundamente. ainda bem que percebes a realidade em que ja vivi e em que muitos milhares ainda vivem. venho tambem agradecer te o que fizes te por mim. raras sao as pessoas que pegam num individuo estranho e inutil que perdeu vontade de viver e perdeu as esperanças de ter uma vida igual a que passa a sua frente. deste me força, conselhos, deste-me rumo a vida e se tenho agora um tecto e um conforto de uma casa de banho posso dizer k foi graças a ti e nao sei de que maneira e que te posso agradecer sem ser kom a vida. estou-te eternamente grato e so te desejo felicidades. um abraço grande aqui do mano. continua o bom trabalho

P.S. Ate ja tenho internet :) obrigado por tudo...

6:54 PM  
Anonymous Cazalis said...

Ento pediram um comentario!!

E vo fazer sim! Tiago teu blog e importante porque nos ajuda a entender alem das imagens a importancia do que documentas.

O passageiro como tu diz e transparente mesmo! A historia do indigente como falamos e humana e gostei de ver que fizeste a expo. Hmmm este comentarioo ta ficando intelectual, ja nao gostei. Po!

Sabe o que quero e ver vc fazer mais, virar fabrica!

Entendeu!!!??

Um abraco.

Cazalis

12:04 PM  
Anonymous EVA RUSSO said...

Hola tiago, he visto con toda atención tu blog, y tu trabajo que sin duda és muy humano, sensible, factual y más, muxcissimo más! Te siento como un fotógrafo cón un preconcepto del mundo..muy humano, y en todo auténtico. Tienes una mirada de la sociedad convencional, que sin casualidades y sin dudas, refleján tu mirada más directa de nuestra sociedad.

Encantada en conocer-te.

"...Un dia en kualkier en Vulcano..."

EVA RUSSO

3:16 PM  

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